Opinião: Acesso à cultura ainda é privilégio no Brasil

Desigualdades sociais limitam o acesso da população aos bens e espaços culturais e reforçam a necessidade de políticas de democratização.

Autora: Ana Popazogo*
Edição: Profs. Wéllem Semczuk e Larissa Bezerra

O acesso à cultura é garantido, como direito social e fundamental, na Constituição Federal de 1988 e desempenha um papel fundamental na formação do indivíduo, mas fatores econômicos e sociais ainda dificultam a democratização desse direito para grande parte da população, evidenciando a necessidade de políticas públicas mais inclusivas.

Segundo pesquisa sobre hábitos culturais feita pelo Observatório Fundação Itaú, com apoio técnico do Datafolha, em 2025, 30% dos brasileiros não frequentam eventos culturais devido à dificuldade financeira. O preço dos ingressos é citado como o maior impeditivo (22%), seguido de gastos com transporte (19%). Os dados revelam também que o nível de escolaridade, a classe social, o tamanho do município e a raça são fatores que determinam quem tem acesso à cultura no Brasil. Embora a participação em atividades culturais esteja presente em diferentes grupos sociais, a qualidade e a diversidade desse acesso ainda são marcadas pela desigualdade. A pesquisa aponta que, enquanto 76% das pessoas das classes A/B frequentam o teatro, apenas 32% das classes D/E têm esse mesmo acesso, evidenciando que fatores socioeconômicos influenciam as oportunidades de consumo cultural.

Os dados mostram que embora a cultura seja um direito de todos os cidadãos, na prática ela continua sendo acessada de maneira desigual. O fato de pessoas com maior poder aquisitivo e escolaridade frequentarem mais museus, teatros e outros espaços culturais demonstra que o acesso ainda é um privilégio das classes mais favorecidas. Além desses fatores, o custo com ingressos e transporte é um problema que afasta ainda mais as classes D/E do acesso à cultura.

Diante desse cenário, é necessária a criação de novos espaços culturais gratuitos em bairros periféricos e longe de centros urbanos. É fundamental que o acesso a teatros, a museus, a bibliotecas e aos centros culturais seja garantido a todos e não somente a moradores das regiões centrais das cidades, pois a instalação dessas estruturas, de forma gratuita, em locais onde a oferta cultural é limitada reduziria os custos de deslocamento, facilitando o acesso da população a diversos ambientes culturais.

Em Medellín, cidade da Colômbia, houve um investimento nas construções de bibliotecas-parque e centros culturais em regiões periféricas como forma de promover o acesso à cultura. O estudo Las bibliotecas públicas como escenarios de participación ciudadana e inclusión social, aponta que o projeto ampliou a participação da população em atividades culturais e fortaleceu vínculos da comunidade nesses espaços.

A falta de acesso à cultura produz impactos na formação dos indivíduos, pois, não deve ser vista apenas enquanto entretenimento, mas também como uma ferramenta de aprendizado e desenvolvimento social. O contato com peças teatrais, exposições, livros, filmes e outras manifestações culturais, amplia o repertório e estimulam o pensamento crítico, favorecendo a compreensão de diversas realidades. De acordo com a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) em seu artigo Culture and Education, o acesso à cultura e à educação artística contribui para o desenvolvimento de competências como o pensamento crítico, criatividade e compreensão da diversidade cultural e cidadania global.

Quando parte da sociedade encontra dificuldade para acessar espaços culturais, a desigualdade educacional também se aprofunda. Enquanto as classes A/B têm mais oportunidade de ampliar os seus conhecimentos e vivências, as classes D/E permanecem afastadas dessas experiências. Por isso, a democratização do acesso à cultura não significa apenas garantir lazer, como também promover inclusão social, cidadania e educação.

Enquanto o acesso a museus, teatros e centros culturais permanecer condicionado à renda e à escolaridade, o Brasil continuará reproduzindo desigualdades que contradizem o principio constitucional da democratização da cultura. Dessa forma, torna-se fundamental a ampliação de espaços culturais gratuitos e acessíveis por meio de políticas públicas efetivas, possibilitando que a cultura cumpra seu papel de formação cidadã, fortalecimento dos vínculos comunitários e promoção de uma sociedade mais inclusiva.

*Meu nome é Ana, moro em Itanhaém (SP) e atualmente estou no último ano do curso de Jornalismo. Escolhi essa profissão por acreditar no papel essencial que o jornalismo desempenha na construção de uma sociedade mais informada, crítica e justa. Sempre fui apaixonada por consumir conteúdos jornalísticos, ainda quando era criança me encantei com reportagens e coberturas que impactaram a minha vida. Um dos grandes incentivos para minha escolha profissional foi o trabalho do jornalista Caco Barcellos, cuja dedicação e compromisso com a verdade sempre me inspiraram profundamente.

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