Atendimento psicológico e orientação jurídica fortalecem apoio à população LGBTI+ em Três Rios-RJ

Centro de Cidadania LGBTI+ é voltado ao atendimento da comunidade da região e marca um importante avanço das políticas públicas da cidade.

Autor: Lucas Afonso*
Edição: Profs. Reginaldo Calegari e Larissa Bezerra

No dia 12 de dezembro de 2025, foi inaugurado, no município de Três Rios-RJ, o Centro de Cidadania LGBTI Centro-Sul. Um marco importante para as políticas públicas de inclusão e diversidade, o equipamento faz parte do projeto Rio sem LGBTIfobia, projeto em parceria com a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).

Logo do projeto Rio sem LGBTIfobia. Fonte: divulgação

O espaço está localizado na Rua XV de Novembro, nº 440, e conta com biblioteca, computadores e tablets de última geração com acesso à internet.  A unidade tem profissionais especializados, como psicóloga, assistência social e advogada, oferecendo apoio e acompanhamento de forma ética e respeitosa. O Centro de Cidadania também auxilia com a retificação de nome da população trans e dá o suporte necessário para documentação. Outros espaços parecidos estão distribuídos por todo o estado do Rio de Janeiro.

Uma das pessoas atendidas em Três Rios é Isadora Santos, estudante de 18 anos. Ela conta que conheceu o Centro de Cidadania por meio das redes sociais da prefeitura. Isadora sonha em se tornar professora de História e ter um futuro com qualidade de vida e realizações pessoais.

Mas o caminho até aqui não tem sido fácil para a jovem. “Minha infância e adolescência foram marcadas pelos desafios da transição mas, para mim, a autoaceitação aconteceu de forma natural”, conta. Ela diz que a família passou a compreender melhor, mas muitos locais ainda são hostis para membros da comunidade LBGTQIAP+. “Nem todas as escolas são seguras para pessoas trans. Já enfrentei preconceito por parte de alunos e profissionais da educação. Atualmente, estudo em uma escola onde me sinto respeitada e acolhida, mas tive experiências negativas em outras instituições”.

O preconceito em números

Segundo um levantamento feito em 2020 pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) 77,5% de crianças e adolescentes transgêneros entre 5 e 15 anos foram vítimas de violência escolar. Foram ouvidos pais e mães em 62 cidades brasileiras. Com base nos relatos coletados, os responsáveis pela pesquisa separam os autores de violência entre adultos e crianças. O resultado revelou que, no grupo dos adultos, 65% dos acusados de bullying eram profissionais da educação, sendo 56% professores.

O Atlas da Violência mostra que a violência contra pessoas LGBTQIAP+ continua crescendo. Entre pessoas homossexuais e bissexuais, foram registrados 10.250 casos de violência em 2024, número 5,5% superior ao observado no ano anterior. Além disso, segundo a ANTRA, Associação Nacional de Travestis e Transexuais, pelo menos 80 pessoas trans e travestis foram assassinadas no Brasil em 2025. O país lidera o ranking dessas mortes.

“É um número assustador”, diz a advogada Gabriela Beneteli, que atua no Centro de Cidadania LGBTI de Três Rios. Para ela, esses dados são resultado de uma combinação de fatores. “Em um primeiro momento, vemos mais pessoas se conscientizando e registrando esse tipo de ocorrência, embora ainda exista uma subnotificação muito grande. Esses números também refletem o preconceito, a discriminação e a segregação enfrentados por essa população.”

As redes sociais também contribuem com discursos de ódio contra a população LGBTQIAP+. É possível observar muitas manifestações de violência nesses espaços. Gabriela reforça a importância da denúncia. “Muitos desses casos sequer são notificados. Portanto, apesar dos números alarmantes, eles provavelmente são ainda maiores. Por isso, é fundamental que as pessoas denunciem para podermos trabalhar na redução desses índices”, explica.

Além da violência física e verbal: a falta de direitos

A violência contra pessoas da comunidade LGBTQIAP+ não está conectada apenas à violência física e verbal. A privação de direitos básicos, como o uso de banheiros públicos por pessoas trans, também é um problema.

A advogada Gabriela Beneteli afirma que as mulheres trans têm direito de utilizar o banheiro feminino, bem como homens trans têm o direito de utilizar o banheiro masculino e que esse entendimento vem sendo reconhecido pela justiça e precisa ser respeitado. “Quando uma pessoa é impedida de acessar o banheiro compatível com sua identidade de gênero, estamos diante de uma violação de direitos que pode gerar constrangimento, discriminação e exclusão social”, diz.

Quando começa a violência?

Apesar das violações de diretos no espaço público, a violência pode ter início nos próprios lares. Muitas vezes, o preconceito parte da família. Por esse contexto tão delicado, o acompanhamento psicológico vira parte fundamental do atendimento a essas pessoas. No Centro de Cidadania a profissional responsável é a psicóloga Rossana Macedo.

Ela diz que no espaço é feito o acolhimento, possíveis encaminhamentos e essas pessoas recebem todo apoio necessário. O suporte também é oferecido aos familiares.

Mesmo quando a necessidade de ajuda não tem conexão com a identidade de gênero ou orientação sexual, o espaço dá suporte a população LGBTQIAP+. Rossana explica que há houve casos de violência por parte de um companheiro, em que tentaram identificar a melhor forma de ajudar e contaram com o apoio da equipe de assistência social.

Esporte sem LGBTfobia

O preconceito tamém está presente no esporte, principalmente no futebol, ambiente dominado por homens e por uma heteronormatividade. Por conta desse cenário, o Projeto de Lei 1702/2021 tem como objetivo instituir o Dia Nacional do Combate à LGBTIfobia no Futebol. A proposta é de autoria da deputada Alice Portugal PCdoB), e contou com apoio do coletivo Canarinhos LGBTQIA+. Se aprovado, a data acontece no dia 13 de novembro e será uma conquista importante na busca por direitos no cenário esportivo.

Responsável pela gestão de territórios do Centro de Cidadania LGBTI, Manfrini Lucas, de 26 anos, é ativista LGBT no futebol. Ele usa as redes sociais para conscientizar as pessoas e criar um espaço mais diverso e acolhedor no esporte.

O ativismo nasceu de uma experiência pessoal. Ao se mudar para Juiz de Fora-MG para cursar jornalismo, ele enfrentou um período difícil e encontrou no acompanhamento psicológico o caminho para resgatar a relação com o esporte. “Eu havia deixado esse amor de lado na infância por ser o moleque mais afeminado da turma e sofrer ataques”, conta. Porém, ao participar de uma caravana com a torcida do Botafogo, sentiu-se acolhido e decidiu continuar.

A recepção que encontrou na torcida organizada do time fez com que percebesse que também havia espaço para ser quem era dentro do futebol. Mais tarde, após uma reunião com a diretoria do clube no Estádio Nilton Santos, decidiu falar ainda mais abertamente sobre sua orientação sexual. “Isso me levou a participar da Conferência LGBT em Três Rios, onde fui eleito delegado. Fui para o Rio de Janeiro e conheci o programa onde trabalho hoje”, diz.

Políticas Públicas para a Comunidade LGBTQIA+ de Três Rios

Pedro Brasil, Secretário de Asssitência Social e Direitos Humanos em Três Rios desde 2021, foi o responsável por trazer o projeto para a cidade. “A criação da Secretaria de Assistência Social e Direitos Humanos permitiu organizar melhor as pautas de direitos humanos”, afirma. A partir disso, ele percebeu que a cidade, mesmo com 87 anos de existência, não tinha políticas públicas voltadas à comunidade LGBTQIAP+. “O Centro nasceu da percepção de que a demanda existia, mas estava invisível. As pessoas não procuravam atendimento porque não havia um lugar onde se sentissem pertencentes”, conta.

Sobre o funcionamento do espaço, o secretário explica que é um equipamento conveniado com a Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social, dentro do “guarda-chuva” dos direitos humanos. “No convênio, o município fica responsável pelas despesas da unidade: aluguel, estrutura, equipamentos, telefone, internet, manutenção e serviços gerais. Já o Estado contrata e paga os profissionais que atuam no espaço”.

A luta continua

No dia 28 de junho comemora-se o Dia Internacional do Orgulho LGBTQIAP+, com diversos avanços para a comunidade. Mas o combate ao preconceito ainda se faz necessário, como mostram os números e tantas histórias de violência. Políticas públicas como o Centro de Cidadania LGBTI se fazem cada vez mais necessárias, bem como o combate a todo tipo de violação de direitos.

Em situações de emergência, a população pode acionar a Polícia Militar pelo número 190. Também existe o Disque 100, destinado ao recebimento de denúncias relacionadas a violações de direitos humanos e funciona 24 horas por dia, sete dias por semana.

As denúncias ainda podem ser registradas em qualquer delegacia de polícia, no Ministério Público e na Defensoria Pública.

Parada LGBT de São Paulo. Foto: VEJA

*Me chamo Lucas Afonso, tenho 34 anos e sou capixaba nascido em Cachoeiro de Itapemirim-ES. Tenho interesse em jornalismo cultural, cidadania e ciência.

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