Estudantes com altas habilidades e superdotação enfrentam desafios apesar de seu potencial

A falta de identificação, capacitação e a persistência de estereótipos podem gerar dificuldades acadêmicas, sociais e emocionais para esses estudantes.

Autora: Thamyris Fernanda Silva*
Edição: Larissa Bezerra

Embora a superdotação seja frequentemente associada à facilidade de aprendizagem e ao alto  desempenho escolar, especialistas alertam que a falta de preparo das escolas para identificar e entender estudantes com essa característica pode gerar consequências acadêmicas, emocionais e sociais negativas.

Estudos indicam que 3% a 5% da população brasileira pode ter altas habilidades e superdotação. No entanto, o Censo Escolar de 2023 registrou 38.019 matrículas de estudantes identificados com AH/SD (altas habilidades e superdotação), o que corresponde a aproximadamente 0,08% dos alunos da educação básica. O mapeamento da Mensa Brasil registrou cerca de 5,2 mil pessoas com altas habilidades e superdotação, sendo 2 mil crianças e adolescentes e 3,2 mil adultos. O perfil dos identificados corresponde à curiosidade, aprendizado rápido, alto nível de questionamento, mas, na maioria das vezes, com baixo rendimento escolar por desestímulo.

A neuropsicóloga Jéssica Alves explica que a identificação das AH/SD não está relacionada apenas ao desempenho acadêmico. O diagnóstico é baseado em um conjunto de características observadas por meio de avaliação especializada. Jéssica explica que a superdotação é caracterizada por uma tríade, que envolve um funcionamento intelectual comprovadamente acima da média, a capacidade de resolver problemas de forma criativa e o engajamento persistente diante de desafios, com a criação de estratégias para lidar com situações difíceis.

A psicóloga ressalta ainda que a condição pode se manifestar em diferentes áreas. “As altas habilidades não vão vir apenas na área acadêmica”, diz. Ela alerta que a imagem do aluno superdotado como um “gênio” não representa toda a realidade desse público. Uma criança com AH/SD pode apresentar elevado funcionamento intelectual e demonstrar habilidades mais expressivas em áreas como a artística.

Impactos no dia a dia

Apesar dessas características serem reconhecidas pela legislação educacional brasileira, muitos estudantes continuam sem receber o suporte adequado dentro das escolas.

Segundo Tatiana Gomes, pedagoga e pós-graduada em psicopedagogia e inclusão, ainda é comum que educadores acreditem que alunos com tais condições não necessitam de adaptações pedagógicas. Ela explica que esse entendimento ignora necessidades específicas desses estudantes. Atividades pouco desafiadoras podem causar desinteresse nesses estudantes, sendo importante propor estratégias que despertem sua curiosidade. “Eles gostam de desafios. Se não tem desafios, para eles, não é interessante”, diz.

A velocidade de aprendizagem desses alunos é um dos fatores que pode gerar dificuldades dentro do ambiente escolar. Como costumam compreender e automatizar conteúdos rapidamente, eles nem sempre se adaptam aos métodos tradicionais de ensino e avaliação, que frequentemente valorizam a repetição de exercícios e a demonstração detalhada de cada etapa do raciocínio. “Vai fazer o cálculo mental e não vai fazer o cálculo na prova e isso não é valorizado academicamente, se ele dá o resultado da equação, mas não demonstra o raciocínio, ele não tem a pontuação”, pontua Jéssica ao ilustrar essa realidade com um exemplo em habilidades matemáticas. Para a psicóloga, situações como essa podem gerar frustração  e desmotivação.

A professora Tatiana Gomes, que também atua no AEE (atendimento educacional especializado) destaca que a falta de preparo e adequações necessárias pode afetar diretamente o rendimento escolar desses estudantes. Segundo ela, o problema não está na capacidade do aluno, mas na ausência de estratégias que favoreçam seu desenvolvimento. “Muita gente acha que nas altas habilidades o aluno tem que tirar dez em tudo, mas ao invés disso ele vai cair porque aquilo para ele não está interessante”, explica.

Consequências

A neuropsicopedagoga Dheane Lourenço afirma que a falta de acolhimento pode provocar impactos significativos no desenvolvimento desses estudantes, segundo ela, os prejuízos podem ultrapassar os limites da vida escolar. “A ausência de desafios compatíveis com seu potencial pode gerar sentimentos de invisibilidade, incompreensão e desvalorização. Em longo prazo, isso pode comprometer o desenvolvimento socioemocional, educacional e até mesmo a percepção que o aluno tem de suas próprias capacidades, explica.

Dheane ressalta ainda que estudantes com AH/SD podem desenvolver sofrimento emocional quando permanecem em ambientes que não reconhecem suas necessidades. Ela afirma que não são as altas habilidades em si que causam transtornos, mas a interação inadequada entre o estudante e o ambiente.

A realidade descrita pelas especialistas é vivenciada por Camila Araújo, mãe de um menino de 8 anos identificado com AH/SD. Segundo ela, o filho costuma concluir as atividades antes dos colegas e, por isso, rapidamente perde o interesse pelos conteúdos trabalhados em sala de aula. A mãe conta que isso deixa a criança ansiosa com frequência.

Camila relata que a falta de estímulos adequados se tornou um desafio constante, pois o menino perde o interesse com facilidade diante de tarefas que considera simples. Para atender às necessidades do filho, a família busca alternativas fora do ambiente escolar. Em sua avaliação, muitas pessoas enxergam a superdotação apenas pelos aspectos positivos, sem considerar as dificuldades que podem surgir quando não há o suporte necessário.

*Estudante de Jornalismo, apaixonada por temas relacionados à educação, inclusão e neurodiversidade. Como mãe atípica, acompanho de perto diferentes realidades e busco produzir conteúdos que ampliem a informação, a conscientização e a representatividade das pessoas neurodivergentes.

3 thoughts on “Estudantes com altas habilidades e superdotação enfrentam desafios apesar de seu potencial

  1. Thamires você foi ótima em publicar um assunto super interessante e que precisamos olhar com mais cuidado e atenção , parabéns continue com este interesse , pois só assim conseguiremos mudar a história de muitas famílias e pessoas , isso significa acompanhamento e inclusão social, ser humano é ter empatia e interesse em mudar situações que envolvem o próximo , siga você está no caminho certo

  2. É um assunto de suma importância pois quando um aluno superdotado não encontra estímulo adequado, o que deveria ser potencial vira frustração.
    Muitos passam anos entediados na escola, outros desenvolvem ansiedade, desmotivação e até abandono escolar. Não é falta de esforço. É falta de políticas públicas que reconheçam e desenvolvam esse potencial.

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