Literatura ajuda mulheres a romper silêncios e construir redes de apoio

Livros, clubes de leitura e projetos sociais fortalecem a escuta, ajudam a identificar situações de violência e criam espaços de acolhimento para mulheres.

Autora: Ana Carvalho*
Edição: Prof. Larissa Bezerra

O aumento de livros, rodas literárias e debates sobre violência contra a mulher não acontece por acaso. Desde a pandemia, quando os casos de violência doméstica cresceram dentro dos lares brasileiros, a literatura passou a ocupar também um espaço de denúncia, acolhimento e reconstrução. A pauta, antes silenciosa, ganhou voz em romances, clubes de leitura, projetos sociais e experiências coletivas de escuta.

A violência contra a mulher continua apresentando índices alarmantes no Brasil. Segundo o 19º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, o país registrou 1.492 vítimas de feminicídio em 2024, o maior número desde que o crime passou a ser tipificado na legislação brasileira. O termo é usado para identificar assassinatos de mulheres motivados por questões de gênero. Mais de 63% das vítimas eram mulheres negras, e a maioria dos assassinatos foi cometida por companheiros ou ex-companheiros.

Os dados também mostram a permanência da violência doméstica como um problema estrutural. Ao longo do ano, mais de um milhão de chamadas relacionadas a agressões contra mulheres foram registradas pelo telefone 190. Paralelamente, a Central de Atendimento à Mulher (Ligue 180) contabilizou 691.444 atendimentos em todo o país, um crescimento de 21,6% em relação ao ano anterior, segundo o Ministério das Mulheres.

Os números ajudam a contextualizar o avanço das discussões sobre feminicídio, relações abusivas e violência de gênero em livros, pesquisas e reportagens publicadas nos últimos anos, mostrando que a produção editorial acompanha uma realidade que continua afetando milhares de brasileiras.

No centro dessa discussão está a escritora Maria Lenice, mineira da cidade de Mesquita, autora do romance Triste Sina, Triste Cena, obra inspirada em acontecimentos reais. A personagem principal, Catarina, foi baseada na história de uma mulher próxima à autora.

A escritora Maria Lenice, autora do romance Triste Sina, Triste Cena, utiliza a literatura para abordar temas como violência psicológica, silêncio e superação feminina.
Foto: Acervo pessoal

Para Lenice, escrever foi uma forma de transformar silêncios em reflexão. “A literatura permite mostrar feridas que muitas vezes ficam escondidas dentro de casas, relacionamentos e consciências”, afirma. Ela conta que o que mais a impactou foi perceber como o medo paralisa muitas mulheres. “Quantas mulheres vivem assim? Sabem que precisam mudar, que merecem mais, mas o medo paralisa: medo do julgamento, da solidão, da rejeição, de começar de novo.”

Violências que nem sempre deixam marcas

A violência psicológica aparece como um dos temas centrais da obra. Segundo Lenice, ela costuma surgir de forma silenciosa e gradual. “Começa com críticas disfarçadas de cuidado, controle excessivo, manipulação, ciúmes possessivos e humilhações. O agressor frequentemente alterna momentos de violência com demonstrações de carinho, gerando confusão emocional e dificultando a percepção do abuso.”

A advogada Daniele Oliveira Silva reforça que muitas mulheres ainda desconhecem seus direitos e que a violência doméstica vai além da agressão física. “É importante sempre lembrar que existem vários tipos de violência: física, verbal, psicológica, sexual e patrimonial”, explica.

Já a advogada Mariana Oliveira Machado observa que muitas vítimas sequer conseguem identificar que vivem situações abusivas. “Quando ela recebe informação clara e acolhedora, começa a enxergar comportamentos abusivos que antes pareciam normais.”

Esse reconhecimento também acontece por meio da leitura. Para a neuropsicopedagoga Julie Any Chaves de Oliveira, fundadora do projeto Temporal do Saber, os livros ampliam repertórios e ajudam mulheres a compreender emoções que antes não conseguiam nomear. “Muitas vezes, uma mulher sente uma dor, um desconforto ou uma violência, mas não consegue nomear aquilo. Quando ela acessa novas palavras, novos conceitos e novas referências, começa a desenvolver ferramentas de análise da própria história”, afirma.

Quando a literatura vira espelho

Dados recentes da Câmara Brasileira do Livro (CBL) mostram que as mulheres ocupam papel de destaque no mercado editorial brasileiro. Elas representam 49% dos leitores do país e, desse total, 50% são mulheres pretas e pardas.

Julie Oliveira acredita que a literatura funciona como um espelho. “As pessoas olham para um livro acreditando que vão encontrar algo distante delas, mas acabam encontrando a si mesmas. Encontram quem são, quem poderiam ter sido ou quem desejam se tornar.”

Lenice também percebe essa identificação. “A literatura provoca reflexão, gera identificação e rompe silêncios. Quando uma mulher lê sobre a dor, o medo ou o processo de libertação de outra personagem, ela pode reconhecer aspectos semelhantes em sua própria história.”

Rodas literárias como espaços de acolhimento

Criado em março de 2025 pela assistente social e mediadora literária Michelle Trevisani, de Americana (SP), o clube de leitura Doce Livro reúne mais de 500 mulheres de diferentes regiões do Brasil em um grupo online. Idealizado para promover trocas de experiências literárias e incentivar o hábito da leitura, o espaço promove debates sobre romances, suspenses e obras mais desafiadoras.

A seleção dos títulos prioriza livros escritos por mulheres, valorizando diferentes vozes e perspectivas femininas. Para Michelle, essas histórias ajudam mulheres a compreender melhor suas próprias vivências. “As ficções nos ajudam a assimilar tudo, nos mostram que não estamos sozinhas”, afirma.

Mais do que leitura individual, clubes do livro e rodas literárias vêm se tornando espaços coletivos de escuta e apoio. Julie Oliveira relata que, em muitos encontros, a primeira transformação percebida é o silêncio: “Depois desse silêncio, vem uma fala. E muitas vezes, depois da fala, vem o choro.”

Segundo ela, esses espaços permitem que mulheres compreendam que vivem situações de violência ou finalmente sintam segurança para compartilhar suas experiências. Ela também destaca a importância da mediação qualificada: “Não basta apenas abrir espaço para conversas difíceis. É preciso saber sustentar esse espaço com responsabilidade e segurança.” Além da escuta, surgem redes de apoio concretas. “Começa uma construção coletiva de caminhos possíveis. Aparecem falas como ‘eu posso te ajudar nisso’, ‘conheço alguém’ e ‘vamos pensar juntas uma saída’”, conclui.

O atributo alt desta imagem está vazio. O nome do arquivo é Roda-de-Leitura-1-1024x1024.jpg
Oficina de Biblioterapia com meninas e jovens do Complexo da Maré, realizada na Casa das Mulheres. Esse registro é do momento em que elas escolhiam alguns livros de doação da Campanha Biblioteca Azul. 2021.
Foto: Acervo pessoal / Julie Oliveira 

Literatura, denúncia e transformação social

O crescimento de obras sobre violência feminina acompanha mudanças sociais importantes. Para Lenice, a pandemia intensificou debates que já vinham crescendo com os movimentos de mulheres e as redes sociais.

Julie faz um alerta importante: “Mais importante do que falar sobre dor é compreender quem está narrando essa dor, com qual objetivo e quais possibilidades de futuro essa narrativa constrói.”

Julie em uma Palestra no HUB ES+, em 2025. Acervo pessoal

Ela cita Carolina Maria de Jesus, Lélia Gonzalez, Conceição Evaristo, Bell Hooks e Chimamanda Ngozi Adichie como referências fundamentais para mulheres que passaram a ocupar o lugar de narradoras das próprias histórias:

“Quando uma mulher começa a se tornar autora da própria história, isso muda tudo”.

Ao imaginar o futuro, Julie diz sonhar com espaços femininos onde a dor não seja mais a pauta central: “Espero que um dia esses encontros possam existir principalmente como espaços de sonho, expansão, potência e construção de futuro.”

Lenice compartilha sentimento semelhante. Para ela, nenhuma dor deve ser naturalizada e toda história pode ser ressignificada.

Obras para entender feminismo, raça e violência de gênero. Fonte: a autora

Rede de Apoio e Contatos Úteis

  • Central de Atendimento à Mulher (Ligue 180) — atendimento gratuito, 24 horas.
  • Polícia Militar — 190.
  • Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher de Vila Velha — (27) 3388-2481.
  • Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Vila Velha — (27) 3391-5850.
  • Defensoria Pública do Espírito Santo — (27) 99695-5352.

*Ana Paula Carvalho é aluna do 2º ano de Jornalismo. Formada em História, tem interesse em reportagens sobre cultura, educação, literatura e direitos humanos, com foco na valorização de histórias de famílias e experiências de vida.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *