Rotatividade, pejotização, burnout e baixos salários ajudam a explicar por que jovens da geração Z permanecem menos tempo nos empregos.
Autora: Mariana Parma*
Edição: Prof. Larissa Bezerra
“Preguiçosos”, “geração nem nem” e “impacientes” são termos do senso comum ao se referirem à geração Z quando se fala em trabalho. Mas os jovens que hoje trocam de empregos em poucos meses também foram os primeiros a entrar no mercado sob a lógica do trabalho informal, da pejotização e do empreendedorismo por necessidade.
Em um cenário marcado por jornadas instáveis, ausência de direitos trabalhistas e adoecimento mental, o esgotamento se tornou uma realidade cotidiana. Dados do Ministério da Previdência Social revelou que os afastamentos por esgotamento mental cresceram 823% em quatro anos. Os números se conectam à alta rotatividade da geração no mercado de trabalho: uma pesquisa do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) apontou que trabalhadores da geração Z permanecem, em média, apenas 12 meses no mesmo emprego.
Pejotização
Um serviço é considerado “pejotização” quando uma empresa, em vez de contratar um profissional com carteira assinada (regime CLT), exige que ele abra uma empresa (CNPJ – Pessoa Jurídica) para prestar serviços.
A doutora em administração Melissa Sperandio defende que a instabilidade financeira em sistemas como Pessoa Jurídica (PJ) está amplamente relacionada com a precarização do serviço. “Você ganha mais ali na hora, mas você não tem garantia nenhuma. No dia que eles não quiserem mais, sai com uma mão na frente e outra atrás. Então, é uma precarização normalizada, estruturada, e vários momentos disfarçada de flexibilidade”.
A instabilidade acontece também pela desistência: o MTE indica que, entre jovens de 18 a 24 anos, 38% procuram oportunidades melhores, 34% não se sentem reconhecidos e 28% relatam questões éticas ou saúde mental.

Anne Santos é graduada em jornalismo, redatora e revisora freelancer. Além disso, atua em uma agência como social media na capital de São Paulo. Sua rotina de trabalho fixo é das 9h às 18h, e, em outros momentos, realiza outros serviços freelances, como redação, revisão e design para empresas.
Ela trabalha no sistema de microempreendedora individual (MEI). No entanto, afirma cumprir horários fixos e manter uma rotina semelhante à de funcionários contratados em regime CLT. Apesar do sistema MEI assegurar auxílio por incapacidade temporária, aposentadoria por idade, salário-maternidade e auxílio-reclusão e pensão por morte, ela não tem direito à alguns benefícios garantidos da Consolidação das Leis do Trabalho. Entre eles, o décimo terceiro, vale alimentação e vale transporte. “É ruim, porque eu me sinto como uma CLT sem direitos”, afirma.
A jovem de 25 anos também afirma que entrou neste sistema porque tinha que pagar dívidas. “Eu já tinha trabalhado dessa forma antes. Eu falei ‘eu nunca mais vou precisar trabalhar com isso’. Mas eu fiquei doente e tive que fazer tratamento médico caro”.
Ela afirma que cresceu vendo o pai trabalhar por 20 anos no mesmo emprego como CLT, e gostaria de ter essa estabilidade de emprego. Apesar das dificuldades, Anne segue buscando um emprego assim, principalmente porque deseja se casar e comprar um apartamento próprio.
Fim da “era do S”
Especialistas apontam que a instabilidade no mercado de trabalho se acentuou ao longo de diferentes crises econômicas. Para o professor de economia Julyerme Tonin, a instabilidade enfrentada por jovens trabalhadores não surgiu por acaso.
Segundo ele, a geração Z entrou no mercado em um período marcado por crises econômicas, avanço da informalidade e enfraquecimento das relações tradicionais de trabalho. “A gente saiu de uma era que premiava o ‘S’. Nossos pais iam atrás de segurança, de solidez, de uma carreira segura, e que tinha sindicatos que afetavam as relações trabalhistas. Tudo isso foi perdendo força e influência. Agora é a era do ‘E’: da exposição, do engajamento e do empreendedorismo”.
Na prática, a lógica descrita pelo professor aparece nas trajetórias de jovens como Anne, que relata ter recorrido ao trabalho como PJ por necessidade, mesmo diante da ausência de garantias trabalhistas. Segundo a Agência Brasil, o número de empreendedores jovens cresceu 25% em 12 anos.
Lethícia Saraiva mora em Jardim, no Ceará, uma cidade de cerca de 30 mil habitantes. Atualmente, está desempregada e procura trabalhos tanto no município que reside quanto em cidades próximas.
Ela já atuou como professora, babá, atendente de lanchonete e bolsista da Programa de Manutenção e Reabilitação de Estruturas (PROARTE). Hoje, sua rotina é de estudos na faculdade, tentativas de concurso e entrega de currículos.
O emprego que Lethícia sonha em encontrar é um que possa ter reconhecimento e um bom salário. Para ela, uma boa remuneração é essencial para que os funcionários trabalhem bem, com menos desgaste moral, psicológico ou emocional. O desgaste da mente é cotidiano para alguns trabalhadores da geração Z: segundo o MTE, o adoecimento mental pelo estresse do trabalho alcançou 26% dos jovens de 18 a 24 anos e 25% dos com 25 a 29 anos.
Novas formas de pensar e se envolver
Para Melissa Sperandio, os jovens romperam com relações de trabalho baseadas apenas em hierarquia e obediência. “A geração Z quer participar dos processos. Eles não querem simplesmente ser um pau mandado”.
Anna Vighi trabalha como gerente de projetos em São Paulo e afirma que o que a mantém em um trabalho é a remuneração e o alinhamento com seu perfil profissional, algo diferente do emprego anterior. “Eu acabava fazendo de tudo um pouco, não me desenvolvia muito bem em nada e não tinha nada a ver comigo”.
Para ela, a remuneração foi um fator decisivo para sua demissão, já que sua parceira de trabalho atuava há cinco anos na fábrica e não tinha perspectiva de aumento de salário.
Sperandio ressalta a importância do pagamento de um preço justo. “A primeira coisa que as empresas vão precisar entender é que esse modelo de exploração não vai mais funcionar. Então ela vai ter que pagar bem. Você vê pessoas que pagam um salário de dois mil reais e elas acham bastante e, às vezes, elas compram uma bolsa que custa isso”.
A discussão sobre remuneração também ocorre em um contexto de forte concentração de renda. Dados do IBGE divulgados neste ano apontam que os 10% mais ricos concentram 40% da renda no Brasil.
Possíveis caminhos a se tomar
Ana Colli, criadora de uma confeitaria afetiva em Maringá, é conhecida por trabalhadores como uma boa gestora. A gestão de Ana chegou a receber críticas de parentes e outros empresários por assegurar direitos trabalhistas: “Falam para mim: você lida com a confeitaria como se fosse uma ONG e não como se fosse uma empresa”. Para ela, muitos empresários só pensam no lucro imediato, e esquecem que o conforto do funcionário pode aumentar a produtividade da empresa.
Colli possui formação em psicologia. Na época da graduação, desejava cuidar de crianças com deficiência. Segundo ela, a confeitaria “foi acontecendo”: “Eu fui simplesmente vendo as oportunidades e fui seguindo”.
Ela começou realizando doces à pronta entrega, e fez tanto sucesso que precisou abrir uma loja física para acompanhar a demanda. Em 2025, foi a vencedora por voto popular do Coffee Festival. Em 2026, continua no pódio como vice-campeã.
A maioria de seus funcionários é contratada pelo regime CLT, com direito a férias, 13º salário e descanso semanal. Ela ressalta a necessidade de possuir empatia com situações difíceis dos funcionários, sem perder o profissionalismo. “Eu tento entender que essas pessoas, fora daqui, têm uma vida. E que se eu, enquanto gestora, conseguir tornar essa vida um pouco mais fácil, eu vou poder contar mais com elas. É como se fosse uma via de mão dupla para mim: a minha empresa precisa delas, assim como elas também precisam do trabalho. Se cada uma fizer sua parte bem feita vai funcionar muito bem”.

Para ela, assegurar direitos trabalhistas é uma forma de encontrar funcionários produtivos e construir relações de trabalho mais duradouras. “Eu sou super a favor da lei do fim da escala 6×1″. Colli prefere permitir que seus colaboradores descansem dois dias na semana e, tenham um décimo terceiro salário para pagar as contas do final do ano e, quando precisar, ter confiança a equipe vai realizar o trabalho da melhor forma possível. “Se a gente faz uma coisa que gosta e é bem remunerado, vai trabalhar melhor”.
*Comunicóloga, acadêmica de jornalismo e repórter do Maringá Post. Apaixonada por arte e cinema brasileiro e movida a conhecer pessoas, histórias e culturas diferentes.
