Telas ganham espaço e reduzem leitura de livros físicos

Redes sociais, conteúdos rápidos e excesso de informação mudaram a forma como muitas pessoas se relacionam com os livros.

Autora: Samara D. Theobald*
Editora: Prof. Larissa Bezerra

O livro está ali. Às vezes na estante, às vezes aberto na mesa. Mas quase sempre interrompido. Uma notificação chega. Depois outra. Em poucos minutos, o que era leitura vira rolagem. E, sem perceber, o tempo passa rápido demais e o livro continua na mesma página.

Essa situação tem se tornado cada vez mais comum. Enquanto o uso do celular cresce, a leitura de livros físicos parece perder espaço na rotina, principalmente entre os jovens. Segundo a 6ª edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, realizada pelo Instituto Pró-Livro, apenas 47% dos brasileiros podem ser considerados leitores, enquanto 53% não leram nenhum livro, impresso ou digital, nos três meses anteriores ao levantamento. Trata-se da primeira vez em que o número de não leitores supera o de leitores no país.

A mesma pesquisa aponta que o Brasil perdeu cerca de 6,7 milhões de leitores em relação ao levantamento anterior. Os dados indicam uma mudança significativa nos hábitos culturais da população e reforçam a preocupação de educadores, bibliotecários e pesquisadores com o futuro da leitura no país. Ao mesmo tempo, conteúdos rápidos e digitais ocupam grande parte do tempo livre das pessoas.

Celular na mão: cena comum na vida de muitos brasileiros. Foto: arquivo pessoal

Reencontrando a leitura em meio a uma rotina digital

Aos 22 anos, Alana Marx trabalha como locutora na Rádio Caibaté e convive diariamente com a velocidade das informações. Apesar de gostar de livros desde a adolescência, ela passou um período sem ler com frequência. A rotina corrida e o tempo gasto nas telas acabaram afastando um hábito que antes fazia parte da vida.

No início deste ano, porém, decidiu retomar a leitura como uma forma de lidar com a ansiedade. A mudança exigiu algumas adaptações. Para que os livros não fossem novamente deixados de lado, Alana passou a reservar um momento específico da noite para a leitura.

Em casa, os livros ocupam um espaço especial. A pequena biblioteca que montou ao longo dos anos reúne exemplares comprados por ela mesma, principalmente romances, seu gênero favorito. Mesmo tendo ficado um tempo distante da leitura, nunca deixou de adquirir novos títulos.

A retomada trouxe resultados. Desde o começo do ano, Alana já leu três livros e percebe uma relação diferente com esse hábito. Ao criar um momento livre das distrações digitais, conseguiu se dedicar mais às histórias e transformar a leitura em um momento de tranquilidade dentro da rotina.

A experiência de Alana mostra como a leitura, para muitos jovens, deixou de ser uma atividade espontânea e passou a depender de escolhas conscientes diante das constantes interrupções provocadas pelas telas.

Mikael acompanha a mudança dos leitores

“Hoje a gente lê só o que interessa. Não temos mais tempo e nem criamos tempo para ler um bom livro. Passamos horas no celular, mas nem sempre isso é uma leitura de qualidade”. É assim que Mikael Machado, 41 anos, descreve a mudança que observa há mais de uma década. Bibliotecário desde 2015 e atuando na Biblioteca Pública de Cerro Largo desde 2022, ele acompanha de perto a transformação dos hábitos de leitura da comunidade.

Ao longo dos anos, percebeu que a procura por livros físicos diminuiu à medida que as informações passaram a estar cada vez mais acessíveis em dispositivos eletrônicos. Para ele, não mudaram apenas os livros procurados, mas também a forma como as pessoas buscam conhecimento. Mikael acredita que grande parte do tempo que poderia ser dedicado à leitura acaba sendo consumido diante das telas. “Passamos horas rolando a tela, buscando alguma coisa, mas nem sempre é uma leitura de qualidade”, diz.

Outra mudança que chama sua atenção está na comunicação das pessoas. Para o bibliotecário, a leitura contribui para ampliar o vocabulário e melhorar a capacidade de expressão. “Quem lê livros está fazendo leitura de materiais que foram rigorosamente elaborados, bem escritos, com linguagem formal e de acordo com nosso idioma.”

O que Mikael observa no dia a dia também aparece nos números. Entre 2015 e 2020, cerca de 764 bibliotecas públicas brasileiras deixaram de funcionar, segundo dados do Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas.

Além da mudança de hábitos, Mikael também observa desafios relacionados às próprias bibliotecas. Segundo ele, muitas instituições enfrentam um processo de esvaziamento. Na universidade onde a biblioteca está inserida, a redução do número de estudantes impactou diretamente a frequência de usuários. Mesmo assim, ele acredita que iniciativas como grupos de leitura, eventos culturais, feiras do livro e uma maior presença das bibliotecas nas escolas podem incentivar a formação de novos leitores.

Para Mikael, a leitura continua sendo uma ferramenta importante para o desenvolvimento pessoal e cultural. O desafio atual não é apenas oferecer acesso aos livros, mas criar condições para que as pessoas voltem a reservar tempo para eles.

Biblioteca Pública Municipal de Cerro Largo/RS, local de trabalho de Mikael Machado. Foto: Samara Theobald

Ler um livro é diferente de consumir conteúdo rápido

Na Escola Estadual Abílio Lautert, em Santo Ângelo (RS), a professora Andressa Cantini busca aproximar os alunos da leitura. Formada em Letras pela Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS) e atuando na escola há quatro meses, ela incentiva o contato com os livros por meio de atividades que vão além da sala de aula.

Uma das estratégias adotadas é levar os estudantes até a biblioteca da escola para que escolham livros de seu interesse. Depois da leitura, os alunos participam de debates e conversas sobre as obras, compartilhando interpretações, opiniões e reflexões sobre o que leram. Durante essas atividades, muitos demonstram interesse pelas histórias e participam ativamente das discussões. No entanto, manter a atenção em leituras mais longas tem se tornado um desafio cada vez mais frequente.

A experiência em sala de aula também mostra uma diferença importante entre a leitura de livros e o consumo de conteúdos nas redes sociais. Enquanto os livros exigem mais tempo, atenção e interpretação, os conteúdos digitais costumam ser rápidos e imediatos.

Para a professora, os jovens continuam demonstrando interesse pela leitura, mas convivem diariamente com muitas distrações. Vídeos curtos, notificações e o excesso de informações disputam espaço com os livros. Ainda assim, ela acredita que o contato com a literatura continua sendo fundamental para desenvolver a capacidade de reflexão, ampliar o vocabulário e estimular o pensamento crítico dos estudantes.

Ao promover momentos de leitura e discussão dentro da escola, Andressa procura mostrar aos alunos que ler não é apenas uma atividade escolar, mas uma forma de compreender melhor o mundo e diferentes realidades.

O cérebro se acostuma com a rapidez

As dificuldades relatadas por Alana Marx, observadas pelo bibliotecário Mikael Machado e percebidas pela professora Andressa Cantini encontram explicação em pesquisas sobre hábitos digitais. Segundo dados do relatório Digital 2024, os brasileiros passam, em média, mais de 9 horas por dia conectados à internet, sendo grande parte desse tempo dedicada às redes sociais e ao consumo de conteúdos digitais.

Segundo a psicóloga Allana Dombrowski, a forma como as pessoas consomem informação atualmente influencia diretamente a atenção e a capacidade de concentração.

De acordo com ela, as redes sociais oferecem estímulos constantes por meio de notificações, vídeos curtos e atualizações rápidas. Com o passar do tempo, o cérebro passa a se adaptar a esse padrão de consumo imediato. “Hoje recebemos uma quantidade enorme de informações em poucos minutos. O cérebro se acostuma a essa velocidade e começa a buscar recompensas rápidas com mais frequência”, explica.

Essa mudança pode tornar mais difícil a realização de atividades que exigem atenção prolongada, como a leitura de livros. Diferentemente dos conteúdos digitais, a leitura demanda mais tempo, interpretação e envolvimento com uma mesma narrativa.

Para a psicóloga, isso ajuda a compreender situações como a de Alana Marx, que precisou criar uma rotina específica para voltar a ler, reservando um momento da noite para se dedicar aos livros. Também contribui para explicar as observações feitas por Mikael, que percebe a diminuição da procura por livros físicosna biblioteca em que trabalha, e pela professora Andressa, que acompanha as dificuldades dos alunos em manter o foco em textos mais extensos. “Isso não significa que as pessoas perderam a capacidade de se concentrar. A atenção é uma habilidade que pode ser exercitada e fortalecida novamente”, afirma.

Segundo Allana, pequenas mudanças de hábito podem contribuir para recuperar essa capacidade. Entre elas estão reduzir as distrações durante a leitura, estabelecer horários específicos para ler e diminuir o tempo gasto em atividades que fragmentam constantemente a atenção.

“Não é necessário começar lendo por horas. O mais importante é criar constância. Quando a leitura passa a fazer parte da rotina, o cérebro se readapta gradualmente a períodos mais longos de concentração”, destaca.

A psicóloga também ressalta que a leitura continua sendo uma ferramenta importante para o desenvolvimento da imaginação, da criatividade e do pensamento crítico. Para ela, em um cenário marcado pela rapidez das informações, dedicar tempo a um livro representa uma oportunidade de desacelerar e aprofundar reflexões.

*Sou Samara Dutra Theobald, tenho 31 anos e sou de Cerro Largo/RS. Sou escritora e autora do livro “Uma Vida Atrás de Um Olhar”. Sou comunicadora e repórter de rádio há mais de 8 anos. Sou leitora, mãe, esposa e estudante de Jornalismo da Unicesumar, apaixonada por histórias, comunicação e pelo poder das palavras.

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