Famílias sustentam sonho e superam desafios na formação de atletas

Em rotina de treinos, competições e incertezas, pais e responsáveis assumem um papel fundamental na trajetória de jovens atletas que sonham em transformar o esporte em profissão.

Autora: Fernanda Ferreira*
Edição: Profs. Reginaldo Calegari e Larissa Bezerra

Antes da visibilidade, dos campeonatos televisionados e do reconhecimento profissional, existe uma trajetória iniciada em campos de bairro, quadras esportivas e escolinhas de futebol e futsal, onde milhares de crianças e adolescentes dão os primeiros passos no esporte.

Embora futebol e futsal sejam frequentemente associados a histórias de sucesso, a realidade das categorias de base é marcada por incertezas. Levantamento da DeltaFolha, da Folha de S.Paulo, publicado em 2024, mostra que 78% dos atletas que disputaram a Copa São Paulo de Futebol Júnior de 2010 deixaram o futebol ou não alcançaram o valor de mercado médio de jogadores da Série D. O estudo acompanhou mais de 1.900 atletas por 14 anos e apontou que apenas 2,6% construíram carreiras de grande destaque.

Mesmo diante desse cenário, famílias seguem investindo tempo e recursos em treinamentos, viagens e competições, assumindo custos financeiros e emocionais na tentativa de transformar o sonho esportivo dos filhos em profissão.

Além dos desafios estruturais e financeiros, a preparação emocional também integra a formação esportiva. Segundo o professor Ewerton Palheta, formado em Educação Física, especialista em treinamento desportivo, licenciado pela CBF Academy e proprietário da escolinha FGOL, jovens atletas convivem desde cedo com cobranças, expectativas e frustrações do ambiente competitivo.

De acordo com ele, todos enfrentam dificuldades durante a formação, principalmente no aspecto mental e psicológico, ainda mais quando começam a ser inseridos no alto rendimento. “Conversamos com eles no pós-jogo e durante a semana de jogos, trabalhando esse mental”, declarou.

A psicóloga do Paysandu, Thaysse Gomes, reforça que o cuidado com a saúde mental dos atletas depende não apenas do trabalho dos treinadores, mas também da participação da família. “A importância da família não é de cobrar, não é de se tornar mais um instrumento de cobrança extrema na vida desse atleta. Na verdade, a importância da família é dar suporte”, diz.

O desafio da formação esportiva

Em reportagem publicada pelo Correio Popular, em fevereiro de 2026, o treinador Leandro Zago, com passagem pelas categorias de base de clubes como Santos, Atlético Mineiro e Fortaleza, afirmou que existe um “gargalo” entre a formação e o futebol profissional. Segundo ele, os atletas chegam ao fim da base preparados tecnicamente, mas enfrentam dificuldades para conquistar espaço em um mercado cada vez mais competitivo.

Na mesma reportagem, Zago destaca que os investimentos dos grandes clubes na formação de atletas podem chegar a dezenas de milhões de reais por temporada. Em alguns casos, o custo mensal para manter um atleta em formação varia entre R$ 25 mil e R$ 30 mil, considerando estrutura, acompanhamento profissional e desenvolvimento esportivo.

Embora a realidade das escolinhas e projetos esportivos seja diferente da observada nos grandes clubes, os dados ajudam a dimensionar a complexidade da formação de atletas no país e explicam por que apenas uma pequena parcela dos jovens alcança o profissionalismo.

Levantamento divulgado pela ABJ Notícias, com base no artigo Jogadores de futebol no Brasil: mercado, formação de atletas e escola, publicado na Revista Brasileira de Ciências do Esporte, em 2011, aponta que apenas 1,5% das crianças que sonham em se tornar jogadoras de futebol chegam ao nível profissional. Quando o recorte considera a elite do futebol brasileiro, esse percentual cai para 0,01%, evidenciando a baixa probabilidade de alcançar o alto rendimento.

Muitos sonham com o profissionalismo no futebol, mas essa ainda é uma realidade de poucos. Foto: Pixabay

Nesse contexto, os desafios enfrentados pelos jovens atletas vão além dos aspectos físicos e técnicos. A pressão por resultados, as expectativas sobre o desempenho e a necessidade de lidar com derrotas e frustrações fazem parte da rotina de quem busca espaço no esporte competitivo.

Ewerton Palheta destaca que a formação também envolve a preparação emocional dos atletas para lidar com essas situações. Segundo ele, é comum que os jovens enfrentem momentos de frustração quando não conseguem desempenhar em campo o que esperavam de si mesmos ou o que a equipe espera deles. “A frustração faz parte do esporte, assim como ganhar e perder. Vamos trabalhar em cima dessa cobrança, porque ela faz parte do alto desempenho”, explicou.

Família caminhando junto ao sonho

Diante desse cenário, a participação da família costuma ser apontada como um dos principais fatores de apoio aos jovens atletas. Além do incentivo emocional, pais e responsáveis assumem a organização de uma rotina que envolve estudos, deslocamentos e treinamentos. Na escola de Futebol FGOL, por exemplo, as categorias de base treinam duas vezes por semana, às terças e quintas-feiras, com horários distribuídos entre 16h e 19h, de acordo com a faixa etária. As atividades atendem crianças a partir dos 5 anos até atletas da categoria sub -13.

A necessidade de conciliar essa rotina faz com que muitas famílias reorganizem o dia a dia para garantir a participação dos filhos nos treinamentos e competições. Essa realidade é vivida por Adriana Ferreira, mãe de dois atletas, que concilia a jornada de trabalho com os compromissos esportivos dos filhos.

“A dificuldade é grande, porque eu trabalho o dia todo. Quando chega 17h, eles vão me buscar no trabalho, que é próximo de casa, e eu venho com eles. Eles saem 16h40 da escola porque optei por coloca-los em uma escola integral, para que não ficassem muito tempo em casa. São gêmeos e os dois gostam muito de futebol. A rotina é intensa, mas a gente vai dando conta”, declarou.

Segundo Thaysse Gomes, esse suporte cotidiano é essencial para que crianças e adolescentes consigam compreender o esporte de maneira saudável. A psicóloga explica que, por estarem em processo de desenvolvimento, os jovens atletas precisam de uma base familiar capaz de oferecer segurança emocional diante das exigências do esporte.

O peso financeiro da trajetória

O envolvimento familiar também está relacionado aos investimentos necessários para a prática esportiva. Dependendo da modalidade e das competições disputadas, os custos incluem mensalidades, uniformes, equipamentos, alimentação e transporte.

Embora o futebol seja frequentemente visto como um esporte acessível, estudos indicam que fatores econômicos influenciam as oportunidades de acesso e permanência na prática esportiva. Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostram que, em 2015, 31,1% das pessoas com rendimento de até meio salário mínimo praticavam esportes ou atividades físicas. Entre aquelas com renda superior a cinco salários mínimos, o percentual chegava a 65,2%.

Um estudo publicado em 2024 na revista científica Movimento aponta que os custos com infraestrutura, equipamentos e manutenção das escolinhas de futebol influenciam diretamente o valor dos serviços, tornando o investimento financeiro um dos fatores que impactam o acesso e a permanência de crianças e adolescentes na prática esportiva.

Embora os dados não tratem especificamente da formação de atletas, eles indicam que as condições socioeconômicas influenciam o acesso a treinamentos, estrutura adequada e competições. Para Adriana, os custos representam um dos principais desafios da família nessa trajetória, principlamente por serem duas crianças. “São dois uniformes, duas chuteiras, é tudo em dobro”, diz. Apesar do esforço para que os filhos continuem na prática esportiva que tanto gostam, a mãe pensa no futuro dele em outros âmbitos da vida. “Eu também reforço que o futebol é um complemento e que eles precisam continuar estudando”, conta.

O papel do futsal e o valor social do esporte

Nesse contexto, o futsal também desempenha papel importante na formação esportiva brasileira. Presente em escolas, projetos sociais e escolinhas, a modalidade é frequentemente apontada como uma das principais portas de entrada de crianças e adolescentes no esporte organizado.

Em entrevista ao portal oficial da FIFA, publicada em outubro de 2024, o técnico da Seleção Brasileira de Futsal, Marquinhos Xavier, afirmou que pretende “deixar um legado voltado ao desenvolvimento de projetos esportivos para crianças”, reforçando a importância da modalidade na formação esportiva e social.

Diversos atletas que se destacaram no futebol profissional iniciaram suas trajetórias no futsal. Entre eles estão Ronaldinho Gaúcho, Neymar Jr. e Philippe Coutinho, que tiveram contato com a modalidade antes de migrarem para o futebol de campo. O futsal é reconhecido por desenvolver habilidades como controle de bola, raciocínio rápido, tomada de decisão e leitura de jogo, características valorizadas também no futebol.

Essa contribuição é reforçada pelo artigo “Leitura de jogo e tomada de decisão: elementos táticos do jogo nos esportes coletivos”, publicado em fevereiro de 2020 no Caderno de Educação Física e Esporte, que destaca a leitura de jogo e a tomada de decisão como elementos centrais para o desempenho em modalidades coletivas, como o futsal, devido às constantes situações de pressão e à necessidade de respostas rápidas.

Esporte e lazer como direito

Apesar dos desafios da profissionalização, o esporte continua sendo reconhecido como uma importante ferramenta de desenvolvimento social.

A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios também mostra o apoio da população ao fortalecimento das políticas públicas para o setor. Segundo o levantamento, 73,3% dos brasileiros consideram importante ampliar os investimentos públicos em esporte e atividade física. Entre os entrevistados, 91,1% defendem que esses recursos sejam destinados prioritariamente à população em geral, e não apenas aos atletas de alto rendimento.

Os dados reforçam que o esporte vai além da formação de jogadores profissionais, estando relacionado à educação, à inclusão social, à saúde e à criação de oportunidades para crianças e adolescentes.

Embora apenas uma pequena parcela dos jovens alcance o futebol profissional, a experiência esportiva e o lazer proporcionados também representam um espaço de desenvolvimento pessoal, convivência social e aprendizado, além de ser um direito garantido na Constituição.

Para Thaysse Gomes, um acompanhamento adequado de família e profissionais de psicologia permite que crianças e adolescentes, mesmo no esporte de alto rendimento, compreendam o significado do esporte em suas vidas e utilizem as experiências vividas nas quadras e nos campos como parte do próprio desenvolvimento pessoal.

*Sou estudante de Jornalismo, com interesse em pautas esportivas e culturais. Paralelamente à formação acadêmica, produzo conteúdo esportivo para plataformas digitais, explorando diferentes linguagens e formatos de comunicação.

One thought on “Famílias sustentam sonho e superam desafios na formação de atletas

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *