Clubes do Paraná adotam ações de inclusão para torcedores autistas

De acordo com estimativas baseadas no Censo Demográfico de 2022, mais de 132 mil pessoas vivem com o transtorno do espectro autista (TEA) no Paraná.

Autora: Mariana Tonet*
Edição: Profs. Reginaldo Calegari e Larissa Bezerra

A paixão pelo futebol é tanta que torcedores autistas muitas vezes enfrentam o barulho e a hipersensibilidade auditiva – característica sensorial que faz com que sons sejam percebidos como excessivamente intensos ou desconfortáveis – para acompanhar o time em campo. Com a maior visibilidade sobre o TEA, clubes que têm investido em medidas de inclusão para esse público.

O Coritiba inaugurou uma sala multissensorial no Estádio Major Couto Pereira em novembro de 2022, tornando-se um dos primeiros clubes do estado a adotar uma estrutura voltada ao acolhimento de torcedores autistas e pessoas com outras condições sensoriais. O clube fez um leilão de camisetas do time para arrecadação do valor inicial da construção do espaço, que estava previsto em R$45 mil. Durante a ação, feita em parceria com o Instituto ICA, associação sem fins lucrativos voltada ao atendimento de autistas, o time conseguiu arrecadar R$100 mil reais.

O clube construiu a sala multissensorial em novembro de 2022. Foto: Coritiba Footbal Club 

O espaço foi desenvolvido para atender torcedores que possam apresentar desconforto diante dos estímulos característicos das partidas de futebol, como o barulho intenso, a iluminação e a grande circulação de pessoas. Em 2023, o time ganhou o prêmio “Melhor Ação Social ou Sustentável” na Confut Sudamericana – a principal conferência e feira de negócios (B2B) da indústria do futebol na América do Sul – pela construção do Camarote de Acomodação Sensorial. A iniciativa abriu caminho para que outros clubes brasileiros passassem a discutir medidas semelhantes de acessibilidade e inclusão dentro dos estádios.

Na torcida do Coritiba, Hillary Caroline, corretora de imóveis e mãe do Arthur, que foi diagnosticado com autismo, criou a página “Autistas Alviverdes Coritiba”, para incentivar a inclusão e a causa. Em entrevista ao Portal Banda B, a porta-voz da torcida contou que o projeto foi criado a partir do diagnóstico do filho, aos 5 anos, como autista nível 3 de suporte e não verbal, que ressignificou a forma com que vê as dificuldades enfrentadas pelas pessoas autistas. “Ainda que o futebol seja feito de contradições, o que ele não pode ser é excludente. O amor que nos une pelo time é o que nos faz família por isso, lutamos para que em nossa ‘casa’ haja inclusão e conscientização”, ressaltou a mãe do Arthur.

Com a ideia, surgiu também a oportunidade de dar dicas por meio do canal oficial do projeto, no Instagram, com orientações de como as pessoas atípicas podem aproveitar melhor uma partida de futebol, como escolha do setor e dicas de segurança.

Camiseta do projeto “Autistas Alviverdes Coritiba” traz pedido de respeito e inclusão. Foto: Divulgação/Redes sociais

Athletico oferece abafadores e sala multissensorial

Outro exemplo de clube que implementou medidas de inclusão é o Athletico Paranaense, que desde abril de 2024 disponibiliza gratuitamente abafadores de ruído para pessoas com sensibilidade auditiva. Os equipamentos podem ser retirados no guarda-volumes da Ligga Arena – estádio do Athletico – e estão disponíveis para torcedores e visitantes. Segundo dados do clube, em 2024, 304 pessoas utilizaram os abafadores em 31 jogos.

O time também inaugurou uma sala multissensorial no estádio, criada para oferecer acolhimento e melhores condições de permanência durante as partidas. O espaço tem capacidade para dez pessoas, conta com isolamento acústico, atividades sensoriais e apoio de psicólogos. Em entrevista ao Globo Esporte, Rubens Neves, diretor da Fundação Athletico Paranaense, explicou: “A ideia não é que o local seja um camarote ou espaço kids, mas que as pessoas que tenham crise em algum momento do jogo possam ter um ambiente de autorregulação e se reencontrar.”

Inauguração da sala multissensorial no Furacão. Foto: Athletico Paranaense

Londrina impulsiona inclusão com torcida Tubautistas

O Londrina Esporte Clube também tem avançado em iniciativas de inclusão voltadas a pessoas autistas no Estádio do Café. Em janeiro de 2023, o clube inaugurou uma sala multissensorial, pensada para oferecer um ambiente mais adequado ao acolhimento desse público. O estádio também já conta com cerca de 20 assentos reservados para pessoas autistas e suas famílias no setor coberto.

Nesse cenário, ganha destaque a atuação de Matheus Dantas, assistente de faturamento diagnosticado com TEA aos 27 anos. Ele uniu a relação com o futebol e a vivência pessoal para dar visibilidade ao tema, que ainda enfrenta desafios e preconceitos, e fundou a torcida organizada Tubautistas, ligada ao Londrina FC. O vínculo com o esporte também vem de família: Matheus é filho do ex-atacante Gian, revelado pelo Vasco e campeão mundial sub-20 com a Seleção Brasileira em 1993.

Em entrevista ao Globo Esporte, Matheus destacou o papel social do futebol: “A gente sabe que o esporte tem um poder de socialização, de educação e de inclusão maravilhoso. E não existe esporte mais democrático nesse país do que o futebol. Então pensei: por que não unir duas paixões minhas, o futebol e o Londrina Esporte Clube, para falar sobre autismo? Usar essa vitrine para trazer inclusão, conhecimento e esclarecimento.”

Ele também conta que a criação da Tubautistas foi inspirada em iniciativas como a torcida Autistas Alvinegros, do Corinthians, formada em 2022 com apoio do goleiro Cássio, que tem uma filha autista. Matheus recebeu o diagnóstico de TEA nível 1 na metade de 2022, após dois anos de acompanhamento psicológico e psiquiátrico.

Eu sempre me senti muito diferente. Sempre percebi que eu era diferente das outras crianças, que eu fui um adolescente diferente, com gostos muito peculiares. Sempre foquei demais em alguns assuntos, ficava muito fechado naqueles temas, muito apego a rotinas e algumas outras características. Mas eu fiz a minha vida, casei, tive uma filha”, relata Matheus na entrevista ao Globo Esporte.

Tubautistas em partida do Londrina contra o Azuriz, em janeiro de 2023. Foto: Londrina Esporte Club

Torcida autista em Maringá

Em Maringá, uma torcida autista também acompanha os jogos na arquibancada. Mas, diferentemente de outras cidades do Paraná, o município ainda não adotou medidas de inclusão como abafadores de ruído ou salas multissensoriais. Em outubro de 2025, o Maringá FC publicou no perfil do time no Instagram uma foto de um torcedor autista participando de uma partida do Dogão e trouxe representatividade e visibilidade ao tema.

Diogo Henrique de Oliveira trabalha como segurança em um estabelecimento de Maringá e é pai atípico. Integrante da torcida autista Maringautistas, ele leva o filho João Rubens, de seis anos, diagnosticado com TEA nível 2 e TDAH, para acompanhar as partidas do Maringá FC. Durante os jogos, a família permanece no setor destinado à torcida. Alguns estímulos sonoros ainda causam desconforto ao menino, mas, segundo o pai, ele tem se adaptado gradualmente ao ambiente do estádio. “Ele se incomoda um pouco com o barulho da organizada ou com shows pirotécnicos, mas já vem se acostumando. Em todos os jogos que ele vai, vai sem o abafador”, destaca Diogo.

A Maringautistas surgiu por iniciativa de torcedores autistas, familiares e apoiadores da causa. Diogo passou a integrar o grupo após conhecer a Força Maringaense, torcida organizada do Maringá FC. Desde então, participa das ações do movimento e ajudou na criação da faixa que identifica a torcida nos jogos. Segundo ele, o tema vem ganhando espaço na cidade, mas ainda há medidas importantes a serem implementadas para ampliar a acessibilidade nos estádios, como a criação de uma sala multissensorial. “Falta um espaço para o autismo e para outras pessoas com deficiência”, afirma o torcedor.

João Rubens com a família durante partida do Maringá FC. Foto Acervo pessoal

Outra medida destacada por Diogo é a flexibilização da entrada de alimentos específicos para pessoas autistas mediante apresentação de documentação comprobatória. Segundo ele, muitos autistas apresentam seletividade alimentar e não conseguem consumir os produtos vendidos nos estádios.

“Meu filho mesmo não come carne nem alguns tipos de pão. Às vezes ele não come certas coisas que têm no estádio e eles não deixam entrar. Se meu filho é autista e tem seletividade alimentar, eu consigo comprovar. Ele tem a carteirinha, o crachá.”

Veja mais no vídeo:


Para Nathan Castilho, presidente da Força Maringaense (torcida organizada do Maringá FC), o movimento de inclusão de pessoas autistas na cidade ainda é pequeno, mas tem crescido nos últimos anos. Aos 26 anos, Nathan trabalha como motoboy em Maringá e acompanha o Maringá FC desde os 14 anos. Passou a integrar a torcida organizada em 2022, onde acompanha de perto a rotina do clube e afirma que tem buscado contribuir para ações voltadas à inclusão.

Foi ele quem apresentou a torcida a Diogo, apoiador do Maringautistas, incentivando sua participação no grupo. Segundo Nathan, a presença de famílias atípicas nos jogos ainda é tímida, mas iniciativas de acolhimento podem contribuir para que esse público se sinta mais seguro para frequentar o estádio. “Em Maringá, o movimento ainda é pequeno, mas algumas ações incentivam os pais a levarem os filhos aos jogos. O pai e a mãe têm receio de levá-los. Com o tempo, vão perdendo o medo e vai tendo mais inclusão. Acho que seria interessante ter um espaço adequado, uma sala adequada”, destaca Nathan.

Confira mais da entrevista com Nathan Castilho no vídeo abaixo:


Um estudo da UFRGS indica que cerca de 90% dos autistas apresentam alterações sensoriais, sendo a hipersensibilidade auditiva uma das mais comuns, com prevalência entre 15% e 100%, dependendo dos critérios adotados. Para a psicóloga Vitória Zanutto, que atende pacientes com transtorno do espectro autista, a maior dificuldade enfrentada por essas pessoas em ambientes como estádios está relacionada justamente à sobrecarga sensorial. “Quando eu entro em um estádio, tenho mil situações que geram dificuldade, seja auditiva ou sensorial, porque muitas pessoas estão falando ao mesmo tempo, há torcidas, gritos. São situações em que muitas vezes eles não conseguem participar da forma como gostariam”, pontua Vitória.

Segundo a profissional, na maior parte dos casos, o abafador é um dos recursos que mais ajudam nessas situações, já que pode reduzir até 70% os ruídos do ambiente. Assim, a disponibilização desses equipamentos contribuiria para a inclusão das pessoas com TEA nos estádios. No caso de crianças neurodivergentes, as medidas representam não apenas a inclusão delas, mas também dos familiares. “Quando a gente fala de crianças neurodivergentes, o sofrimento não é só para uma pessoa, é para a família inteira. Deixamos de ter um ambiente acolhedor para a família porque ela não consegue participar”, explica a psicóloga.

Entrevista completa no vídeo abaixo:


Ainda de acordo com a especialista, a falta de inclusão não está presente apenas nos estádios de futebol, mas também em diversos outros espaços da sociedade. “Todo mundo fala que é inclusivo, mas isso não existe na prática para muitas famílias. Ninguém sabe o que elas enfrentam diariamente. Quais medidas de inclusão eu tenho hoje? Muitas vezes nenhuma. No caso dos estádios, eu não tenho salas sensoriais, não tenho abafadores. E não são medidas impossíveis de serem implementadas.”

Avanços e mudanças necessárias

Apesar dos avanços registrados nos últimos anos em iniciativas de inclusão voltadas a pessoas autistas, um levantamento do Globo Esporte aponta que 60% dos estádios das Séries A e B do Campeonato Brasileiro de 2025 ainda não possuem salas sensoriais.

As medidas adotadas por clubes do Paraná têm reforçado as conquistas da comunidade autista e a crescente visibilidade do tema dentro do esporte. Iniciativas como salas multissensoriais, abafadores de ruído e espaços reservados para famílias atípicas têm demonstrado que a inclusão nos estádios é possível e pode ampliar a participação desse público em eventos esportivos.

No entanto, para pais e pessoas autistas, ainda há um longo caminho a percorrer. Em cidades onde essas medidas ainda não foram implementadas, a presença nos estádios ainda depende da adaptação individual das famílias e do esforço de grupos organizados que buscam reconhecimento e acessibilidade.

Por fim, como destaca Diogo, a conscientização sobre o autismo não pode ficar restrita a datas específicas do calendário. “Como pai atípico, não só no futebol, mas no aspecto geral da sociedade, as pessoas só lembram do autismo no dia 2 de abril. Todo mundo faz aquela propaganda bonita, fala que reconhece e apoia a causa, mas esquece que o autismo existe todos os dias. Para os autistas interagirem com o restante da sociedade já é muito difícil. O reconhecimento precisa acontecer o ano inteiro”.

*Estudante de Jornalismo da Unicesumar.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *