Espaços inclusivos permitem acessibilidade nos estádios para torcedores neurodivergentes

Estádios de futebol criam espaços de acomodação acústica e regulação emocional para acolher público com Transtorno do Espectro Autista em partidas oficiais.

Autora: Priscila Amorim*
Edição: Profs. Reginaldo Calegari e Larissa Bezerra

O barulho das baterias, os sinalizadores e a agitação das massas compõem o cenário tradicional do futebol nos estádios nacionais. Para uma parcela da população, contudo, esses estímulos operam como barreiras de acesso ao esporte. O Transtorno do Espectro Autista (TEA) atinge cerca de 2,4 milhões de cidadãos no Brasil, o que representa um caso para cada 38 habitantes, segundo dados estimativos baseados no Censo Demográfico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Diante dessa realidade, arenas esportivas reformulam suas estruturas para garantir o direito à convivência social.

O avanço ocorre por meio da instalação de salas de acomodação sensorial. Dos 39 estádios utilizados pelos clubes das Séries A e B do Campeonato Brasileiro, 15 dispõem de espaços privados para autistas e outras pessoas neuroatípicas. O indicador aponta que mais de 60% das principais praças esportivas do país ainda carecem de áreas adaptadas. No campo legislativo, a Comissão de Esporte analisa um projeto de lei que estipula a reserva de até 2% dos assentos das arenas para pessoas neurodivergentes e acompanhantes, além de exigir espaços de descompressão.

Estádios de futebol brasileiros com espaços de acessibilidade para pessoas com TEA. Foto: imagem gerada por IA-ChatGPT.

O diagnóstico de nível 1 de suporte do filho, há 15 anos, inseriu o diretor de operações de tecnologia da informação de São Paulo/SP, Rogério Lins, de 52 anos, no ativismo social. Torcedor do São Paulo Futebol Clube, Lins acompanhou a mobilização civil por acessibilidade. A articulação gerou o Sou Tricolor Autista, um coletivo fundado por três casais de pais atípicos em 2022. O grupo reúne mais de 7,8 mil integrantes em redes sociais.

Rogério Lins no Estádio Nilton Santos. Foto: arquivo pessoal

A demanda resultou na inauguração da Sala TEA+ no estádio são-paulino, em março de 2024. O recinto possui isolamento acústico para conter o ruído externo e oferece dispositivos de regulação emocional. “A engenharia prepara e adapta esses espaços para acolher o público, com vidros que bloqueiam o som externo e equipamentos utilizados para descompressão caso um torcedor enfrente uma crise”, afirmou Lins.

Sala TEA+ no MorumBis. Foto: Rubens Chiri/saopaulofc.net

Os obstáculos remanescentes concentram-se na circulação externa das praças esportivas. O fluxo de pedestres no entorno dos complexos gera sobrecarga sensorial antes e após as partidas. “Persistem aspectos a aperfeiçoar, principalmente no que tange à chegada e à saída dos torcedores, para evitar o impacto da multidão nos arredores das arenas”, disse o diretor. Lins apontou que a oferta de vagas de estacionamento internas e fluxos de entrada exclusivos atenuam o desgaste da experiência.

O impacto clínico

Ana Sofia de Almeida Costa, psicóloga clínica, atua há mais de uma década no Sistema Único de Saúde (SUS), com passagens por Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e na Estratégia Saúde da Família (ESF). Ela explica que o isolamento prejudica o desenvolvimento psicomotor e afetivo, e que a exposição de indivíduos neurodivergentes a ambientes públicos atua como elemento de evolução terapêutica.

A permanência em recintos coletivos estimula competências adaptativas. “A inserção em ambientes de lazer e cultura constitui um direito fundamental que impacta o desenvolvimento sociocognitivo do indivíduo com Transtorno do Espectro Autista”, afirmou Costa. Segundo a psicóloga, recintos esportivos inclusivos retiram o paciente do isolamento compulsório, estimulam a previsibilidade social e promovem sentimentos de pertencimento e identidade comunitária.

As cabines sensoriais cumprem papel de intervenção física imediata durante os jogos. “O ambiente de um estádio de futebol expõe o torcedor neurodivergente a uma intensidade severa de estímulos sonoros, visuais e cinestésicos, desencadeando crises decorrentes da disfunção do processamento sensorial”, explica.

Gargalos na saúde pública

Se o acolhimento avança no entretenimento, o acesso ao tratamento clínico enfrenta entraves na rede governamental. Famílias de baixa renda dependem exclusivamente do sistema público para obter assistência multiprofissional. O percurso regulatório estende-se por meses devido à escassez de profissionais especializados na rede de atenção básica e especializada.

O atraso na identificação dos sintomas compromete a eficácia das condutas terapêuticas. “A principal barreira identificada na rede pública de saúde centraliza-se na descentralização da assistência e na alta demanda reprimida por equipes multiprofissionais”, afirmou Costa. A psicóloga ressaltou que o itinerário entre a identificação dos primeiros sinais clínicos, o fechamento do diagnóstico neurodesenvolvimental e o início das terapias especializadas apresenta lacunas temporais severas, o que posterga intervenções precoces determinantes para a autonomia do cidadão.

*Estudante de Jornalismo; Bióloga e Educadora Ambiental; Técnica em Agente de Saúde e Funcionária Pública; São-Paulina; torcedora do Celtic FC; mãe de 4 pets; amo leitura, estudos, psicologia, animais, séries e futebol.

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