Como a primeira fábrica têxtil do Rio Grande do Sul, na cidade mais antiga do estado, atingiu o sucesso, o abandono e hoje revive e apresenta sua história.
Autor: Tiago Rijo Dos Reis*
Edição: Prof. Larissa Bezerra
Curiosidade. Esse costuma ser o sentimento despertado em quem passa pela frente da edificação localizada na avenida Presidente Vargas, em frente ao cemitério ecumênico e próxima ao centro comercial da cidade de Rio Grande, cidade litorânea localizada ao sul do estado do Rio Grande do Sul e a cerca de 320 km da capital do estado, Porto Alegre. Esse sentimento não costuma poupar ninguém. Pedestres, motoristas e passageiros de carros e ônibus, condutores de motos e caminhões, crianças, jovens, adultos, idosos, estudantes, trabalhadores, turistas, todos olham para tal prédio e são tomados pela curiosidade. Sabe-se ou ouviu-se falar que era uma fábrica grande, mas como era e como é lá dentro? O que era feito? Qual a história contida ali?

a fábrica Rheingantz. Foto: Arquivo pessoal
A cidade
Rio Grande, fundada em 19 de fevereiro de 1737 pelo Brigadeiro José da Silva Paes, é a cidade mais antiga do Rio Grande do Sul. Possui a Praia do Cassino, considerada a maior praia do mundo em extensão, o clube de futebol mais antigo do Brasil em atividade ininterrupta, o Sport Club Rio Grande, fundado em 19 de julho de 1900, além de um dos maiores e mais ativos portos marítimos da América Latina.
Em dezembro de 1966, foi local escolhido pela NASA para instalação de base de lançamento de foguetes. A partir de 2023, o locutor esportivo Galvão Bueno passou a divulgar o Cassino durante o verão, vindo visitar e hospedar-se com frequência na cidade. Mas o que menos gente sabe é que Rio Grande já teve também a primeira fábrica têxtil do Rio Grande do Sul e uma das primeiras e maiores do Brasil, fundada em 1873, a Rheingantz. Onde fica localizada a Rheingantz? Naquele prédio que desperta tanta curiosidade.

Breve história da Rheingantz
Em 1873, o imigrante de origem alemã Carlos Rheingantz, juntamente com outros sócios, fundou a Fábrica Nacional de Tecidos e Panos Rheingantz & Vater, trabalhando prioritariamente com processamento de lã vinda de propriedades rurais de cidades próximas localizadas na região da fronteira com o Uruguai e Argentina. Em 1891, a sociedade rompe-se e apenas Rheingantz fica na empresa e a rebatiza como Sociedade Anônima União Fabril.
Em 1884, é construída a Vila Operária, complexo habitacional para os funcionários da fábrica. Mais tarde, foi construída também uma creche para filhos de funcionários. Em 1907, a empresa é considerada uma das 100 maiores indústrias do Brasil, com 1008 funcionários e em grande produção de mantas, cobertores, casacos, tapetes, todos produtos feitos de lã pura.
Durante a Primeira Guerra Mundial, entre 1914 e 1918, e a Segunda Guerra Mundial, entre 1939 e 1945, a Rheingantz produziu em grande escala para o governo brasileiro. Na década de 1920, devido a necessidade de modernização, começa a enfrentar crises em função da competicão com empresas mais modernas do Sudeste, apesar de contar com maquinário oriundo de países como Alemanha e Inglaterra. Entre 1920 e 1960, a produção é intensa e em 1956 a companhia norte-americana Wernertex é contratada para uma tentativa de modernização da empresa.
Em 1968, começa a atrasas salários e acaba fechando as portas. Em 1970, foi comprada pela pelotense Cia. Inca Têxtil. Em 1990, encerra as atividades permanentemente em função das crises econômicas.

O trabalho na fábrica
Houve um momento em que 80% da mão de obra era feminina e os homens costumavam ficar em funções administrativas e de trabalho braçal. Havia a submissão a longas jornadas e remuneração baixa, já que a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) foi criada na década de 1930 e a fábrica iniciou as atividades em 1873. Era comum crianças e adolescentes trabalharem na fábrica, mesmo sem operar as máquinas.
Não eram utilizados equipamentos de proteção individual (EPIs), então os acidentes eram corriqueiros, desde pequenos cortes a fraturas e perdas de dedos. Dois acidentes são conhecidos em relatos obtidos durante a pesquisa: uma operária prendeu os cabelos em uma máquina de tear ao abaixar-se e perdeu o couro cabeludo e, já na década de 1980, uma operária teve o pé esmagado por um pequeno trem que conduzia insumos para a fábrica, sendo demitida quando voltou de licença.

Abandono, deterioração e redescoberta
Desde o seu fechamento, o complexo foi abandonado, restando em boas condições somente o salão do clube social do União Fabril, onde eram realizados almoços e festividades, dentre elas tradicionais bailes de Carnaval para toda a comunidade. A estrutura da fábrica foi atingida por intempéries climáticas como chuvas de granizo, que destruíram telhado e janelas da fábrica, além do piso desgastado pelo tempo e falta de manutenção.
Em 2012, o Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico do Estado do Rio Grande do Sul (IPHAE) realizou o tombamento da estrutura da Rheingantz.
O tombamento é um ato administrativo do poder público que protege bens de valor histórico, cultural, arquitetônico ou ambiental. O objetivo é impedir a destruição ou descaracterização desses locais e objetos, garantindo que a memória coletiva seja preservada para as futuras gerações.
Pesquisa Histórica
A arqueóloga Vanessa Costa é responsável pelo trabalho de pesquisa e resgate histórico da Rheingantz. Ela constrói esse trabalho principalmente através da memória das ex-operárias. Natural de Rio Grande, graduada pela Universidade Federal do Rio Grande (FURG), com mestrado e doutorado pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel), ela diz que sempre foi uma criança curiosa e gostava muito de escutar as histórias contadas pela avó, ex-operária e principal inspiração. Assim, ingressou no curso de Arqueologia decidida a trabalhar com a Rheingantz. Vanessa fala um pouco também sobre a avó, Dalva Costa, que trabalhou na fábrica na década de 1950. Começou com 14 anos, longe das máquinas, e veio a trabalhar com elas depois.
Vanessa já realizou diversas exposições com documentos e produtos doados pela comunidade, rodas de conversa com ex-operárias para compartilharem memórias, além de um projeto de extensão destinado a alunos do cursos de Arqueologia e História da Universidade Federal do Rio Grande (FURG). Há alguns anos, mantém a página Memórias da Rheingantz no Instagram e no Facebook e, desde 2025, promove visitas guiadas semanais ao complexo que abriga a antiga fábrica, com diversos produtos e documentos. Entre eles, destacam-se tapetes costurados de forma manual e fotografias antigas. Em dias comuns, cerca de 20 pessoas passam pelo local na visitação.
Um desses visitantes é Jorge Lopes, mecânico industrial aposentado, natural de Rio Grande e que atualmente trabalha com fotografia. Ele conta que sua mãe e sua avó trabalharam na fábrica e sempre teve muita curiosidade pra conhecer o local e registrar em fotos. Ele lamenta o abandono pelo qual a construção passou, mas fica feliz com o resgate, que, para ele, varoliza o patrimônio histórico.
A Rheingantz hoje
Além da pesquisa histórica da arqueóloga Vanessa Costa, empresários fundaram o projeto Nova Rheigantz em 2021. Nesse período, um grande supermercado que trabalha nos sistemas de atacado e varejo passou a funcionar ali. Também foram instaladas franquias em “lojas-container” de uma grande empresa de cosméticos e perfumaria e uma grande empresa de chocolates, cafeteria e, mais recentemente, um “gastropub”, com cervejas, drinks e hambúrgueres artesanais, tudo dedicado a comunidade de Rio Grande e turistas.
Por ficar perto da Lagoa dos Patos, em 2024 o complexo foi atingido pela enchente que assolou quase todo o estado do Rio Grande do Sul. No entanto, não houve grandes danos ao patrimônio.

*Tiago Rijo, morador da cidade de Rio Grande-RS, professor de História graduado pela Universidade Federal do Rio Grande (FURG) e graduando em Jornalismo pela Unicesumar, integrante da equipe da Revista Vozes.

Parabéns pela matéria! Adoro histórias desse tipo!