Tuberculose ganglionar exige atenção ao diagnóstico e tratamento

Forma extrapulmonar da doença apresenta crescimento dos gânglios linfáticos e pode ser confundida com outras condições de saúde.

Autor: Gabriel Fagundes*
Edição: Prof. Larissa Bezerra

A tuberculose continua sendo um problema de saúde pública no Brasil. Segundo dados do Ministério da Saúde, o país registra cerca de 80 mil novos casos da doença por ano. Embora a forma pulmonar seja a mais conhecida, os casos extrapulmonares também chamam atenção, especialmente a tuberculose ganglionar, considerada a manifestação extrapulmonar mais frequente da doença.

De acordo com o Boletim Epidemiológico de Tuberculose 2024, divulgado pelo Ministério da Saúde, a maior concentração de casos da doença no Brasil ocorre entre pessoas de 20 a 49 anos. A tuberculose ganglionar afeta os linfonodos — conhecidos popularmente como gânglios ou “ínguas” — principalmente na região do pescoço, o que costuma levar pacientes a procurar atendimento médico após perceber caroços persistentes.

A infectologista Paula Battaglini explica como funciona o diagnóstico, os exames e o tratamento da doença.

O que é a tuberculose ganglionar e como ela se diferencia da tuberculose pulmonar mais conhecida?

A tuberculose ganglionar é a forma extrapulmonar mais frequente da tuberculose no Brasil, correspondendo a aproximadamente 30% a 40% dos casos extrapulmonares. Ela ocorre quando a bactéria Mycobacterium tuberculosis acomete os linfonodos, especialmente os da região cervical. Diferentemente da forma pulmonar, o paciente geralmente não apresenta tosse como principal sintoma. O quadro costuma se manifestar por aumento progressivo dos gânglios, popularmente chamados de ínguas, especialmente no pescoço.

Quais costumam ser os primeiros sinais da doença? O aparecimento de caroços no pescoço é comum?

Sim. O aumento progressivo dos linfonodos do pescoço é a manifestação mais característica. Esses gânglios geralmente são indolores, podem aumentar lentamente ao longo de semanas ou meses e, em alguns casos, evoluir com amolecimento e drenagem espontânea. Também podem ocorrer febre, sudorese noturna, perda de peso e fadiga.

Muitas pessoas associam a tuberculose apenas ao pulmão. Por que a forma ganglionar ainda gera tantas dúvidas?

Porque a tuberculose pulmonar é a forma mais conhecida e responsável pela transmissão da doença. No entanto, a bactéria pode atingir diversos órgãos. Como a tuberculose ganglionar não costuma apresentar tosse persistente, muitas vezes ela não é lembrada inicialmente pela população e até mesmo pode ser confundida com outras doenças.

Como funciona o processo de diagnóstico da tuberculose ganglionar?

O diagnóstico deve combinar avaliação clínica, exames de imagem e análise do material obtido do linfonodo. Sempre que possível, recomenda-se realizar teste rápido molecular para tuberculose (TRM-TB), baciloscopia, cultura para micobactérias e exame anatomopatológico. A confirmação bacteriológica continua sendo o padrão de referência.

Em quais casos a biópsia é necessária?

A biópsia é especialmente importante quando o diagnóstico permanece duvidoso ou quando há necessidade de afastar outras doenças. O exame anatomopatológico pode demonstrar inflamação granulomatosa com necrose caseosa, um achado bastante sugestivo de tuberculose, além de auxiliar na exclusão de neoplasias, linfomas e outras infecções.

Existe dificuldade para diagnosticar a doença rapidamente?

Sim. É importante destacar que o aumento de gânglios não significa necessariamente tuberculose. O diagnóstico diferencial inclui outras doenças infecciosas, como toxoplasmose e doença da arranhadura do gato, doenças autoimunes, linfomas e metástases. Por isso, frequentemente é necessária investigação complementar, especialmente em pacientes imunossuprimidos, nos quais os diagnósticos possíveis são ainda mais amplos.

Como funciona o tratamento e qual é a duração média?

O tratamento para a tuberculose ganglionar é realizado com os mesmos medicamentos utilizados para a tuberculose pulmonar, com uma fase que chamamos de indução por 2 meses – com rifampicina, isoniazida, pirazinamida e etambutol, seguidos da fase de manutenção que tem duração de quatro meses com rifampicina e isoniazida. Portanto, a duração habitual é de seis meses, desde que a evolução clínica seja satisfatória. É importante destacar que, mesmo após o início do tratamento adequado, os gânglios podem permanecer aumentados por algum tempo ou até apresentar aumento transitório de volume em decorrência da resposta inflamatória do organismo, sem que isso signifique falha terapêutica. Por isso, o acompanhamento clínico é fundamental para avaliar a evolução de cada caso.

O que pode acontecer quando o paciente interrompe o tratamento antes do tempo recomendado?

Na tuberculose, sentir-se melhor não significa estar curado. A cura só é alcançada quando o tratamento é concluído corretamente. A interrupção do tratamento pode levar a falha terapêutica, levando à recidiva da doença, e sendo acrescida de resistência aos medicamentos. O tratamento das formas resistentes é mais longo, mais complexo e apresenta maior risco de efeitos adversos.

Que orientação a senhora daria para pessoas que percebem gânglios aumentados no pescoço ou suspeitam da doença?

A principal orientação é procurar avaliação médica se o aumento dos gânglios persistir por mais de duas semanas, especialmente quando associado a perda de peso, febre ou sudorese noturna. A tuberculose tem cura, e o diagnóstico precoce permite iniciar rapidamente o tratamento e reduzir o risco de complicações. Além disso, o SUS disponibiliza gratuitamente os exames diagnósticos e o tratamento.

*Eu sou o Gabriel Fagundes, tenho 24 anos e sou de São Paulo-SP. Sempre gostei muito de esportes, filmes, cultura de outros países, só que a maior paixão sempre foi o futebol, e no jornalismo consigo vivenciar isso de mais perto do que se pode imaginar. Levar informações para pessoas de todo o Brasil, conhecer culturas novas, gírias, comidas. Não tenho dúvida que fiz a escolha certa.

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